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Estética do Sertão
07 June 2014

A Estética do Sertão

A porta do sertão aberta aqui é mágica, festiva, poética, triste, árida, mítica; é construída com rimas, sonhos, cores, santos, demônios, pedras, morte e vida. Evoca a música que vem dos tambores, dos pífanos, das violas e das rabecas. Exibe trajes com bordados coloridos, a chita, o couro trabalhado dos gibões, os mantos dos reis e as composições bricoladas com retalhos e fitas coloridas.

Trata-se de um sertão com uma paisagem quase sempre de uma vegetação rasteira e seca, formando uma massa de cor ocre-terra, ocre-vegetação, que se estende e oprime os fios de espelhos d’água que insistem em correr entre as terras secas.

É desse contraste entre essa natureza árida e o homem que a habita que nasce a estética do sertão. A impressão que se tem é que o sertanejo diante de sua natureza árida, numa ânsia de complementá-la, buscasse assim através de suas expressões plásticas, as cores e formas próximas de um estilo barroco, porém antropofagicamente modificado e com elementos que ora complementam ou rivalizam com a geografia árida.

Como no sertão nada está totalmente organizado em estruturas de compêndios ou com etiquetas que decodificam, à partida, o que é o estético, a narrativa aqui não se estabelece o tempo todo como linear ou racional. Ela incorpora as incertezas, certezas, o delirante, o imaginário. Assim a compreensão se torna áspera, bifurcada, diversa e afinada com a complexidade do mundo. Esse é o sertão que emerge do meu olhar flâneur e da relação de conhecimento que tenho sobre ele. A pesquisa (como pensamento racional construído), como também ato intencional e sistemático de construção da realidade, vem aqui se acoplar as imagens e textos de um sertão poético, lírico, imaginante.

É certo que, na ciência, explicamos esse mundo, sobretudo por meio de palavras, mas as palavras nunca poderão desfazer o fato de estarmos imbricados pela expressão do olhar. Por outro lado, a maneira como vemos as coisas é afetada pelo que sabemos ou pelo que acreditamos. O olhar, como diz Dietmar Kamper, é antes de tudo um ato de “padecimento” do ser humano. E o sertão como diz Oswaldo Lamartine (escritor nordestino) é o espaço geográfico e mental onde: “Cada vivente tem o seu sertão. Para uns as terras além do horizonte e, para outros, o quintal perdido da infância”.

O sertão é essa terra quente que arde no coração, que tem cheiros, cores e ruídos singulares. O sertão tem gosto de riso e solidão, gosto do acaso da vida, dos enganos, do inesperado, da dor da terra esturricada e de toda morte desassossegada.

As bordadeiras do sertão traçam poemas com as linhas. São linhas multicoloridas que vão preenchendo superfícies monocromáticas como se fossem a terra seca do sertão. As mulheres do sertão bordam sem alvoroço, com simplicidade. Nos bordados predominam as imagens de flores, todas de um colorido intenso, quase excessivo, exuberante como a paixão – esse sentimento que dilacera almas. As bordadeiras enterram as linhas ponto a ponto na trama do tecido, como cacos que cortam, como sangue que preenche, como um ato próximo à loucura das miudezas ou da rotina das cozinhas. A linha é o grande personagem, capaz de acessar, simular, reter e desafiar.

Tanto o sertão de ontem como o sertão de hoje são povoados de artistas primitivos, singulares, com uma obra abissal, banhada pelo pôr-do-sol da caatinga, lavrada pela pele da Caetana ou eternizada pelas pedras-lispes despencadas do céu. Um corpo em festa, animado pelo riso, cores e paixões que habitam no homem e, no entanto, se singularizam no sertão.

Antes de construir conceitos ou máquinas, enquanto fabricava as primeiras ferramentas, o homem criou mitos e pintou imagens, como disse Mikel Dufrenne. Assim é necessário compreender que a arte espontânea desde sempre exprime o liame do homem com a natureza.

Para os arqueólogos brasileiros, os lugares no sertão que foram habitados pelos primeiros homens foram os brejos, exatamente porque os brejos têm solos mais férteis, com filetes d’água, sendo possível a sobrevivência face à aridez das terras vizinhas. E são lá onde até hoje se encontram os sítios arqueológicos com as pinturas rupestres mais significativas

Os homens que chegaram ao Nordeste brasileiro pertenciam a grupos mongolóides como todos os habitantes das Américas, anteriores à colonização européia. Assim os índios brasileiros habitantes da região Nordeste são os descendentes de levas arcaicas que atravessaram, há milhares de anos, o estreito de Bering. Para Gabriela Martin (arqueólaga): “foi precisamente nos sertões nordestinos do Brasil, onde a natureza é particularmente hostil à ocupação humana, onde se desenvolveu uma arte rupestre pré-histórica das mais ricas e expressivas do mundo”.

A pedra, os signos, as formas estão na matriz das regras estéticas que se transformam numa verdadeira “arte poética” desde o homem pré-histórico até hoje, passando por diversas civilizações e culturas. A sensação que se tem é a de que existe um fio, simultaneamente tênue e forte, que resiste e persiste atravessando tempos e culturas como uma travessia que se transforma/desdobra e se abre numa passagem fantástico-mítica e utópica. Assim, a Abissínia, o império Inca, a China, a Grécia ou o Sertão são também espaços metafísicos capazes de superar e ultrapassar a mera realidade, e espalhar os fios agregadores de universalidade e permanência da imaginação humana.

Como no caso da significação da morte no sertão. Além da figura mítica da Caetana, há outras imagens impregnadas de sonoridades e vida. Passa-nos a impressão que a morte carrega a vida em sua plenitude, que é parte natural da natureza, é apenas uma transcendência da vida. Contraria o sentido irremediável de que morte é separação. A vida é a morte, a morte é a vida. Essa experiência estética do sertanejo com a morte é a experiência em estado mais bruto (primeiro/original) e abrangente.

O conjunto de fragmentos que compõe meu dizer/sentir sobre a estética do sertão não se fecha aqui. São várias outras entradas, como na literatura, na poesia, nos hábitos culturais, na arquitetura, nos mitos, na alimentação e no imaginário. Cada um desses recortes do mundo sertanejo dizem uma só e mesma coisa: a condição humana expressa pelo homem do sertão responde com exuberância á aridez, à falta e ao infortúnio da vida.

Texto retirado do site “Sombra da Oiticica”, de autoria da professora Angela Almeida. O texto é um fragmento do altamente recomendável livro “Estética do Sertão”. 

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